InícioPolíticaRolando Christian Coelho | Lula e Flávio trocam bandeiras para conquistar indecisos

Rolando Christian Coelho | Lula e Flávio trocam bandeiras para conquistar indecisos

A campanha presidencial de 2026 está proporcionando um espetáculo curioso: a direita descobriu o charme das bandeiras trabalhistas, enquanto a esquerda resolveu elogiar as virtudes do empreendedorismo e das parcerias com a iniciativa privada. Faltando poucos dias para o segundo turno, o presidente Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) parecem empenhados em provar que proposta boa é aquela que conquista votos, mesmo quando nasceu no quintal do adversário.

Flávio, por exemplo, promete preservar o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o Farmácia Popular, programas consagrados pelos governos petistas. Foi além: votou a favor do fim da escala 6×1, depois de criticar o caráter eleitoreiro da medida. Entre desconfiar de uma proposta e ajudá-la a avançar, bastou aparecer um detalhe relevante: milhões de trabalhadores também votam. O candidato que defende menos Estado descobriu que, para muita gente, proteção social e descanso semanal são questões mais urgentes do que a teoria econômica preferida dos partidos.

Lula, por sua vez, passou a destacar incentivos aos microempreendedores individuais, os MEIs: ampliação do limite de faturamento, acesso ao crédito, renegociação de dívidas e menos burocracia. Vale lembrar que até pouquíssimo tempo Lula defendia a tese de que trabalhador seguro é trabalhador com carteira assinada. O presidente também defende concessões de rodovias e ferrovias e parcerias com empresas privadas.

Não virou um entusiasta irrestrito das privatizações; apenas demonstra que o capital privado, tão criticado em certos discursos partidários, pode ser um aliado bastante simpático quando precisa investir, gerar empregos e, quem sabe, render votos.
A troca de figurinos chega à segurança pública. Geraldo Alckmin, vice de Lula, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves, como homicídio e latrocínio. A bandeira costuma ser associada à direita, embora Alckmin já a sustentasse antes de integrar a chapa petista. Assim, enquanto Flávio se aproxima das demandas trabalhistas, o campo governista abre espaço a um discurso mais rigoroso sobre criminalidade. A militância mais ortodoxa deve estar tendo algum trabalho para acompanhar o roteiro.

Essa movimentação revela menos uma conversão ideológica do que uma leitura pragmática do eleitorado. O brasileiro pode apoiar o Bolsa Família e as concessões privadas, pedir o fim da escala 6×1 e defender penas mais duras. Não consulta a cartilha de partido algum antes de se preocupar com salário, segurança, crédito ou contas a pagar. Lula e Flávio perceberam que suas torcidas já estão em grande parte definidas. A disputa real é por quem não pretende votar apenas para defender uma sigla.

O teste virá depois das urnas. Apoiar benefícios sociais, descanso ao trabalhador, empreendedorismo e investimentos privados é relativamente fácil no palanque. Difícil será sustentar compromissos, negociar projetos e explicar seus custos quando terminar a campanha. Por enquanto, PT e PL participam de um animado empréstimo de bandeiras, sem recibo e, talvez, sem prazo de devolução. Na política, convicções podem ser firmes; mas, quando faltam votos, até a ideia do adversário ganha uma beleza surpreendente.

Finais

Pesquisa Datafolha divulgada ontem aponta o senador Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos, contra 49% do presidente Lula da Silva, configurando empate técnico a dez dias do segundo turno. Na semana anterior, o senador tinha 52%, contra 48% do presidente. Nos votos totais, Flávio aparece com 47% e Lula com 45%. Brancos e nulos somam 6%, enquanto os indecisos representam 2%. O levantamento, encomendado pela Folha de S.Paulo, ouviu presencialmente 2.520 eleitores, nos dias 13 e 14 de outubro, em 153 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o registro no TSE é BR-00466/2026.

A pesquisa evidencia diferenças importantes nas bases eleitorais. O senador Flávio Bolsonaro lidera no Sul, com 57% contra 35% do presidente Lula da Silva, e no Sudeste, por 51% a 41%. Entre os evangélicos, registra 62%, diante de 29% do presidente. Lula da Silva mantém vantagem no Nordeste, com 61% contra 32%, entre os mais pobres, por 53% a 38%, e entre as mulheres, por 49% a 40%. Também lidera entre os católicos, com 52% contra 42%. Com 33,4 milhões de abstenções no primeiro turno, a mobilização dos eleitores poderá ser decisiva em 25 de outubro. A diferença entre os candidatos na primeira votação foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos.

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